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Pesquisa Escolar

Linhas Encantadas - Embaúba, fibra-mãe

Adaptação de texto
Sheila Maria Guimarães de Sá,
Pesquisadora Serviço de Estudos e Pesquisas/CODIC/MI

"A embaúba, tuthi, é a fibra-mãe porque é mágica. Pode fazer com que mulheres se transformem em sucuris, produzir abelhas, realizar caças e tecer caminhos que chegam até as aldeias celestes"

Tuthi, mãe-fibra, ou linha "encantada", é o nome da embaúba com a qual as mulheres ancestrais teceram objetos mágicos, capazes de grande feitos. Hoje, as mulheres Tikmu'un fiam e enlaçam delicadamente sobre suas pernas as últimas fibras que ainda encontram em suas vizinhanças, retiradas da casca das embaúbas, uma das poucas árvores resistentes ao desmatamento da região. Desenvolveram uma refinada arte de enlace, sem nós, modelando suas malhas ao mesmo tempo em que fazem as linhas. Modelam bolsas, redes de pesca, redes para carregar as crianças - tipóias, fios para arcos, vestidos, colares. Os enlaces criam texturas fluidas, reproduzindo as vibrações dos ambientes aquáticos, das primeiras mulheres-sucuri, segundo os ancestrais, assim transformadas por meio da tessitura de linha grossa feita com embaúba, e de onde se originam seus desenhos: escamas de peixes, patas de jacaré. E em outros casos, quando enlaces muito fechados, reproduzindo casas de abelhas, vespas, marimbondos.

Os Tikmu'un saem em grupo para buscar a embaúba nos boqueirões já distantes das suas aldeias, fora do seu território. Desenvolveram técnicas de manejo e um antídoto contra a mordida das formigas que habitam o interior destes troncos. Os pica-paus, grandes apreciadores das formigas, muitas vezes deixam os troncos inaproveitáveis. As mulheres enquanto trabalham cantam os cantos da embaúba, trazidos pelos macacos-espíritos (os Tikmu'un acreditam que todos os serem possuem um espírito). Esses cantos descrevem os processos de negociação entre os coletivos – homens, mulheres, pica-paus, embaúbas – que participam deste ciclo de coleta, raspagem, secagem e enlace da embaúba, e que visam à produção das linhas "encantadas".

Assim como a embaúba, outras matérias encontradas em suas regiões servem à arte das mulheres tikmu'un. Os sacos de mantimentos hoje são desfeitos e transformados em novas linhas em um mesmo e contínuo gesto que modela. Surge então um jogo de cores variadas que permite uma constante surpresa do olhar. É na junção dos finos fiapos da embaúba e de outros fios, na modelagem de malhas que se entrelaçam sem nós, na delicadeza e na liminaridade dessa arte que reside à força-estética tikmu'un.

Uma região, um povo e a memória da arte

Tikmu'un é a autodenominação dos Maxacali, nome pelo qual são administrativamente reconhecidos pelo Estado brasileiro. Nos dias atuais são um conjunto de povos com cerca de 1.500 pessoas, falantes da língua Maxacali, tida como pertencente ao tronco Macro-jê. Vivem em quatro terras indígenas localizadas ao extremo nordeste de Minas Gerais, na fronteira com o Estado da Bahia: 1) na Terra Indígena de Água Boa, no município de Santa-Helena; 2) na Terra Indígena do Pradinho, no município de Bertópolis; 3) na Aldeia Verde, no município de Ladainha e 4) na Aldeia Cachoeirinha, no município de Teófilo Otoni. A soma da extensão destas terras descontínuas é de 6.020 hectares.

Os Tikmu'un mantêm ativa a memória da diversidade dos seus grupos ancestrais, embora, nos anos 1950, esses povos tenham quase chegado ao completo desaparecimento. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, percorreram os espaços compreendidos entre o litoral sul da Bahia e o leste de Minas Gerais ao longo dos Vales dos rios Jequitinhonha, Mucuri, Buranhém, Jucuruçu (ou Rio do Prado), Itanhém (ou rio Alcabaça) e outros rios menores dessa região. Vários são os registro dos povos que foram agrupados na família lingüística Maxacali: os Malali, Makoni, Pataxó, Kumanaxó, Kutaxó, Panhame, Kopoxó, Pirikus, etc. Segundo os viajantes do século XIX que estiveram nas regiões freqüentadas pelos Tikmu'un, eles foram os maiores construtores dos barcos que navegaram no Jequitinhonha e suas mulheres as maiores oleiras, as quais seguramente deixaram suas marcas na tradicional olaria da região. A saga desses grupos – hoje pensados como "Maxacali" – possui vários trajetos e alianças por regiões outrora cobertas por uma densa floresta atlântica. Estão entre as sociedades indígenas originárias das zonas de Mata Atlântica que, após os difíceis séculos de contato com a sociedade envolvente e a perda de suas terras e de seus recursos naturais, preservam com grande resistência suas línguas e práticas simbólicas, mantendo ativa a sua cultura.

Os Tikmu'un desenvolveram estratégias próprias para lidar com os limites que enfrentam, fazendo face ao desaparecimento de suas florestas, seus cursos de água, peixes, pássaros e bichos da mata, e, sobretudo, para lidar com os gestos e olhares daqueles que sempre tentaram apagar sua presença nestas regiões.

Fonte:

MUSEU DO ÍNDIO. Tikmu'un/Maxacali – Linhas Encantadas – Embaúba, fibra-mãe: Catálogo de peças Maxakali (Nordeste de Minas). Rio de Janeiro: Museu do Índio/FUNAI, 2011. 10p. Il. cor.
TUGNY, Rosângela Pereira. Cantobrilho Tikum'um: no limite do país fértil. Rio de Janeiro: Museu do Índio/FUNAI. 2010. 96p. Il. cor.
Acesso as fontes: http://www.museudoindio.gov.br/pesquisa/acervo-online (Acervo Bibliográfico)

Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 17h 30min; sábado, domingo e feriado, das 13h às 17h. Entrada gratuita.
Rua das Palmeiras, 55. Botafogo - Rio de Janeiro/RJ - Brasil. CEP 22.270-070. Tel.: (21) 3214.8700

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