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Museu do Índio - Projetos

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Pesquisa Escolar

Museu de Portas Abertas: o acervo etnográfico do Museu do Índio

Renata Curcio Valente
Antropóloga e Economista
SEESP/CODIC/Museu do Índio 

Em 2016, o Museu do Índio completou sessenta e três anos de atuação no campo da preservação da memória e do patrimônio dos povos indígenas no Brasil.

Criado em 1953, a partir das atividades de pesquisa da Seção de Estudos (SE) do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), o museu está ligado à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e é reconhecido como um dos mais importantes museus etnográficos do país, pela riqueza e diversidade de seu acervo.[1] A instituição é reconhecida não só pelo alto rigor técnico com que guarda e conserva os bens de cultura material dos povos indígenas, mas sobretudo por ter o segundo maior acervo etnográfico dos povos indígenas no Brasil. São aproximadamente vinte mil objetos etnográficos contemporâneos, expressões da cultura material de aproximadamente 150 povos indígenas que viveram e vivem no território brasileiro e na América do Sul.[2]

Quem pode imaginar a riqueza e diversidade que o acervo do Museu do Índio guarda e preserva? Quantas histórias e conhecimentos de artistas indígenas e de suas culturas estão presentes nas Reservas Técnicas? Explorar as coleções etnográficas e investigar como elas foram formadas pode nos revelar aspectos importantes das histórias e das culturas indígenas, além de mudanças no pensamento antropológico e nas formas de organização de acervos museológicos no Brasil. Neste artigo, procurei trazer um panorama geral da história da formação do acervo etnográfico do Museu do Índio e um breve levantamento de seu conteúdo. Esperamos nos próximos textos abordar algumas coleções específicas, com o intuito de contribuir para o conhecimento deste diversificado mundo da cultura material dos povos indígenas no Brasil.

A organização do acervo do Museu do Índio baseou-se em categorias de classificação de objetos indígenas já consagradas na bibliografia etnológica. Essa classificação leva em conta, primordialmente, a matéria-prima empregada, a técnica de confecção e a morfologia do artefato. Assim, o acervo do Museu do Índio foi organizado, tomando por base trabalhos que regulamentaram as normas e os termos para trabalhar com coleções etnográficas, desenvolvidos por Berta Ribeiro. Em sua pesquisa sobre a “nomenclatura das coleções etnográficas”, que resultou na publicação dos volumes da Suma Etnológica (1986)[3] e no “Dicionário do Artesanato Indígena” (1988)[4], Berta procurou desenvolver critérios “científicos”. Foi com base nestes critérios que o acervo etnográfico do Museu do Índio foi organizado,  sendo as seguintes categorias para os tipos de coleções: 1) objetos rituais, mágicos e lúdicos, 2) adornos plumários, 3) armas, 4) cerâmica, 5) cordões e tecidos, 7) instrumentos musicais e de sinalização 8) utensílios e implementos de materiais ecléticos, 9) trançados, 10) etnobotânico e 11) adornos de materiais ecléticos, indumentária e toucador.

O acervo apresenta, em termos quantitativos, um certo equilíbrio quanto à distribuição por tipo de categoria, cada uma com um total variando entre 1.750 e 2.400 itens, sendo as duas maiores coleções as de adornos de materiais ecléticos, indumentária e toucador, com 4.058 itens, seguida pela coleção de cerâmica, com 2.478 peças. A categoria com menor representatividade é do acervo de etnobotânica, que tem apenas 54 itens registrados.

As melhorias nas condições de conservação do acervo etnográfico tiveram início nos anos 1990,  quando adotou-se uma política para maior organização das Reservas Técnicas e, posteriormente, a partir de 2000, de otimização do espaço destinado ao acervo, com sua melhor visualização e também controle de pragas.  Em relação à documentação dos objetos etnográficos, até 1967, o registro das peças era feito item a item, individualmente, sendo somente a partir de então implementado o registro tripartido, por “coleção”. Esta informação facilita ao pesquisador identificar um conjunto de peças que foi doado ou comprado pela instituição de um mesmo “colecionador”. No entanto, esta “coleção” não apresenta necessariamente uma coerência, nem representa uma mesma coleta, feita por um mesmo pesquisador, em uma mesma comunidade ou um determinado período, mas reflete apenas a formalização da entrada de bens que são patrimonializados pelo Estado. Neste sentido, até meados dos anos 1990, a instituição o fazia por meio do Livro de Tombo, quando então o registro passou a ser feito também em uma base de dados digital. Em 2007, migrou-se para um software livre para inclusão de itens individuais, que tem possibilitado o acesso a um número de informações bem maior que no Livro de Tombo. Mais recentemente, o Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (ProgDoc) contribuiu para o aprimoramento de informações das coleções existentes, com o acompanhamento e revisão das informações registradas nas fichas catalográficas dos objetos pelos próprios indígenas, além da aquisição de novas coleções. Assim, no que se refere à difusão de informações, a instituição vem aperfeiçoando seus instrumentos de pesquisa on-line, oferecendo informações e imagens sobre seus acervos, que encontram-se disponíveis ao acesso por qualquer pessoa, de qualquer lugar, por meio da rede da Internet.

O acervo do Museu do Índio apresenta um universo amplo de oportunidades de investigação, caracterizando-se como um complexo e heterogêneo conjunto de peças, coletadas e colecionadas, ao longo da história da instituição, por diferentes agentes. Algumas curiosidades podem ser encontradas, como as coleções formadas por presidentes da República, presidentes da Funai, padres e missionários. Nota-se que os atores que mais contribuíram para este acervo foram os sertanistas, funcionários e indigenistas da Funai e de outras instituições de pesquisa, que estabeleceram os primeiros contatos com grupos indígenas, entre os quais destacam-se Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, os irmãos Villas Boas, Max Boudin, Egon Schaden, Ney Land, Geraldo Pitaguary, Mário Simões e muitos outros. Eles coletaram e organizaram coleções de objetos e registraram em fotografia e filmes os cotidianos de vários grupos indígenas, como os Karajá, os Kadiwéu, os Maxakali, os Baniwa, os povos do Xingu, entre outros. [5] 

 
Terena. Pote. Mato Grosso do Sul. 1955; Coleção Roberto Cardoso de Oliveira.  Urubu. Pente de uma haste singelo . Maranhão. 1952; Coleção Darcy Ribeiro
 Pote Terena. Mato Grosso do Sul. 1955. Coleção Roberto Cardoso de Oliveira, e Pente Urubu de uma haste singelo . Maranhão. 1952. Coleção Darcy Ribeiro.
 
     Mais recentemente, sobretudo no final dos anos 1970 e na década de 1980, pesquisadores acadêmicos vêm contribuindo para a melhor qualificação de coleções etnográficas do acervo, formando coleções com melhor informação documental. São coleções de grande valor etnográfico e estético, como a coleção Araweté, feita por Berta Ribeiro, ou dos povos Marubo, Matis e Mayoruna, organizadas por Julio Cézar Melatti e Delvair Montaigner ou mesmo a bela coleção de cerâmicas Asurini, formada por Regina Muller. As coleções organizadas mais recentemente vêm contando com a colaboração dos indígenas, como a coleção Palikur e dos povos do Oiapoque, organizada por Lux Vidal e a coleção Wajãpi, montada por Dominique Gallois.[6]
Wajãpi. Brinquedo de bico de tucano. Amapá. 2001;Coleção Dominique Gallois Wajãpi. Amuleto Wayãpi. Amapá. 2001; Coleção Dominique Gallois
 Brinquedo de bico de tucano, Wajãpi, Amapá, 2001, e Amuleto Wayãpi, Amapá, 2001. Coleção Dominique Gallois.
 
    Cada vez mais, os povos indígenas estão se interessando pelos museus etnográficos, contribuindo para a formação de novas coleções e para a qualificação de coleções existentes. No Museu do Índio, são inúmeras as coleções formadas pelos próprios indígenas desde os anos 1980, como as coleções de trançados dos indígenas Xyhcaprô Krahô, Jacalo Kuikuro e Julia Macuxi, bem com as de plumárias, de Talukumã Kalapalo e Arrula Waurá e a grande coleção de cerâmica de Quitéria Pankararu..
Kalapálo. Braçadeira emplumada. Mato Grosso. 1987; Coleção Índio Tafukumã Kalapálo
Kalapálo. Braçadeira emplumada. Mato Grosso. 1987.
Coleção Índio Tafukumã Kalapálo
 

Há muitas possibilidades de pesquisas no acervo etnográfico do Museu do Índio a serem desenvolvidas. Tal como os eventos de arte contemporânea, em que o público circula por entre os ateliers espalhados pelos bairros da cidade, a pesquisa no acervo etnográfico pode ser uma forma de percorrer as trilhas por entre os objetos de arte dos povos indígenas no Museu do Índio, observando, conhecendo e desfrutando a sua beleza e diversidade, como se o público estivesse experimentando uma visita aos “ateliers” indígenas, acessando as histórias dos povos indígenas no Brasil e conhecendo um pouco de sua contribuição artística.

 

NOTAS:
- Texto produzido com a finalidade de publicação no sítio do Museu do Índio. Agradeço a Ione Couto, museóloga e Coordenadora de Patrimônio Cultural do Museu do Índio, pela disponibilidade de sempre em atender e colaborar com informações precisas sobre a história do acervo da instituição.

[1] Lasmar. Denise Portugal. O Acervo Imagético da Comissão Rondon no Museu do Índio – 1890-1938. 2ª. Edição. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2011, p.61.

[2] Dados recolhidos na base de dados do Museu do Índio em setembro de 2016. Ver: http://base2.museudoindio.gov.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl82.xis&cipar=phl82.cip&lang=por

[3] Ribeiro, Berta. Suma Etnológica Rio de Janeiro: FUNARTE, 1986.

[4] Ribeiro, Berta. Dicionário do Artesanato Indígena, Rio de Janeiro, 1988.

[5] Couto, Ione. A Seção de Estudos do Serviço de Proteção aos Índios, em:Freire, C.A. Memória do SPI Textos, Imagens e Documentos sobre o Serviço de Proteção aos Índios (1910-1967). Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2011P.223-231.


[6] Valente, R. C. Sobre coleções e colecionadores: o acervo de cerâmica do Museu do Índio. Trabalho apresentado na 30ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 03 e 06 de agostode 2016, João Pessoa/PB. Em: http://www.abant.org.br/conteudo/ANAIS/30rba/admin/files/1467341609_ARQUIVO_GTArte2016trabalhoRenatafinal.pdf 

 

Publicado em 17/02/2017
Atualizado em 22/02/2017.

Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 17h 30min; sábado, domingo e feriado, das 13h às 17h. Entrada gratuita.
Rua das Palmeiras, 55. Botafogo - Rio de Janeiro/RJ - Brasil. CEP 22.270-070. Tel.: (21) 3214.8700

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